O preço do "descontinho"

by - setembro 14, 2014

Uma das coisas que eu sempre tive bem claras para mim, era que independente de qual ramo profissional eu seguisse em minha vida, eu queria alegrar as pessoas.

Tentei o Direito, não deu, pq na verdade, a vida inteira eu quis ser enfermeira, até que tive coragem e fui cursar, ajudar pessoas doentes, partos, conversar com velhinhos e velhinhas bem sabidos da vida ... é, enfermagem também não deu, pq eu não posso salvar o mundo, as pessoas morrem, e eu não sou uma pessoa preparada para lidar com a morte, logo, fuén fuén para a enfermagem.

Aí eu me tornei mãe, e junto aos bebês e a mãe que nascia, nasceu uma vontade doida de ser dona do meu próprio negócio, de não ter que me justificar pra chefe, de gerenciar algo que fosse meu, de não ter que bater ponto, de poder trabalhar de pijama, ou de não ir trabalhar quando estivesse péssima.

Nesse meio tempo, a Amor de Papel já existia, a Amor de Papel era esse empreendimento, eu trazia alegria para a vida das pessoas com meus personalizados, e eu me vejo plena e satisfeita fabricando fofuras que encantarão a vida de muitas pessoas.

Como eu já disse, eu queria ser realizada profissionalmente, fazer algo que me desse prazer, e fazer os personalizados, me traz esse prazer. Me traz tanta felicidade, que eu me formalizei como MEI, e junto a outros órgãos do governo, para que pudesse ter mais segurança e oferecer um atendimento diferenciado para os meus clientes, como Nota Fiscal do produto que compram e mais coisinhas que eu acho necessárias.

Tudo isso, somado à material de primeira, ao tempo, à dedicação em procurar e desenvolver trabalhos diferentes, gera um gasto maior, e se o gasto é maior, o repasse ao cliente é maior.

Sem menosprezar quem trabalha fora de maneira alguma, mas hoje, já tendo trabalhado fora, e trabalhando para mim, eu acho infinitamente mais fácil, sair de casa cedo, cumprir minhas 8 horas diárias de trabalho e final do mês meu salário estar no banco.

Eu decidi trabalhar em casa, e junto á isso, ficar próxima das minhas filhas, preparando suas refeições, levando para a escola, dando almoço, banho, indo ao parquinho, cuidando da casa, lavando e passando roupa, pq eu não sou rica, meu marido estuda e trabalha, eu fico sozinha o tempo todo com as meninas, e rebolo para dar conta da casa, das crianças, da comida, das encomendas ...

Muitas vezes, para garantir que a festa do filho de alguém saia perfeita, que o batizado fique encantador, que a primeira eucaristia seja inesquecível, eu abdico de tempo com a minha família, abdico de tempo com as minhas filhas, com meu marido, com meus pais ... pq quando eu assumo um compromisso, eu o honro até o fim, tenho muito orgulho de dizer que nunca furei com um cliente em toda jornada da Amor de Papel, já levei encomenda daqui de SJC até SP, para entregar em mãos, para garantir que sim, os itens estaria presentes no evento para o qual fui contratada, tenho muito respeito com o sonho alheio, furar com um cliente é muito mais que devolver  dinheiro, é frustrar um sonho, e quem trabalha com sonhos, não tem o direito de desapontar assim quem quer que seja.

Contraditório né, para garantir que a festa de alguns saia perfeita, eu abro mão de um tempo precioso com as minhas filhas, meu marido, minha família. Ossos do ofício, pq eu escolhi que fosse assim.

E aonde eu quero chegar com essa lenga lenga toda? Calma que eu tô quase lá!

Quando eu defino o valor final de um produto, eu calculei tudo, o custo inicial, o desgaste da máquina, o papel, a tinta, os acabamentos, o estudo que fiz até chegar naquela peça, o custo dela se eu comprei o molde pronto, a produção e execução das pessoas, e o principal O TEMPO.

Tempo que eu deixo de estar com minha família, tempo que eu levo indo buscar mercadoria boa para repassar ao cliente, tempo colando pecinha por pecinha, tempo recortando, tempo respondendo email do cliente e tirando toda dúvida que ele possa ter sobre o produto que está comprando, tempo pesquisando o que diferente no segmento para oferecer ao cliente, tempo, tempo, tempo.

Ou seja, tempo custa dinheiro!

Acredito que nem todas as pessoas tenham essa visão do que é por preço em um produto, mas comigo, quando o cliente compra uma peça, ele não leva somente uma pecinha, ele leva parte do meu tempo e do meu coração, pq eu me dedico para entregar o melhor que posso fazer, eu gasto meu tempo para entregar o meu melhor, e para dar o meu melhor, eu abdico muita coisa.

É por isso que eu não acho justo quando alguém vem e diz que o produto da pessoa é caro, que na verdade, o que oferecemos é apenas papel. Não, não é só papel, é parte da gente que é oferecida naquela caixinha, naquele convite ... é um pedaço que poderia estar se divertindo com a família na beira da piscina em um churrasco num dia de sol bem bonito, mas que não, optou honrar o compromisso firmado, e está fazendo sua festa, cumprindo com a obrigação para qual se prontificou.

Quando alguém pede um "descontinho" ela não pede que você simplesmente abaixe seu preço, ela pede pra que vc menospreze o tempo que lhe é tão sagrado, que poderia ser gasto de formas muito mais gostosas que colando caixinhas ou letras 3d, ela pede que você ignore toda abdicação a família, aos passeios, a tudo que é gostoso, pq afinal de contas é apenas papel.

Não tenho nada contra descontos, acho que tudo por ser conversado, e o combinado não sai caro, mas o preço do descontinho é esse, é desvalorizar seu tempo como profissional, pra um cliente que só vai em busca de melhor preço, e que vc pode oferecer o que há de melhor nos seus produtos, mas que te trocará facilmente por outra pessoa quando encontrar quem faça mais em conta.

E esse menosprezo pelo tempo alheio não vale só pra cliente que quer desconto logo de cara, vale também pra colega de profissão que quer tudo mastigado, que acha um absurdo você  não compartilhar o molde/fonte/kit digital/ pq afinal d contas, todos temos que ser Madre Teresa de Calcutá.

Não se pode mais fazer uma peça exclusiva, desenvolver um molde que só você tenha, para garantir que seu cliente tenha mercadoria  única, só dele?

É errado isso?
Quem perde hooooras desenvolvendo um projeto e opta por não disponibilizar o molde é tido com vilão, e já vi coisas bárbaras sendo ditas, julgamento de caráter pq a pessoa não quer compartilhar algo que ela criou, que ela fez sozinha "quando morrer vai levar embora?". daí pra frente, é desesperador ver tanto egocentrismo, tanta gente que quer tudo mastigado e que não coloca a cabecinha pra pensar e julga os outros que optam em não compartilhar e pronto.

Pessoal, vamos rever nosso conceitos, como profissionais, como clientes e como pessoas, pq por trás de um simples "ahhh, dá um desconto vai!", tem mais que um apelo de preço, tem todo o apelo, que eu já disse ali em cima!

Beijos

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4 comentários

  1. Parabéns flor... Amei seu texto, li linha por linha e é exatamente isso que sentimentos realmente. Perfeito

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  2. Perfeito e serve pra td tipo de comércio ou prestação de serviços.

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