Não somos coitadinhos!

by - novembro 23, 2015


artesão
substantivo masculino
indivíduo que pratica arte ou ofício que dependem de trabalhos manuais.
 - artífice que exerce sua profissão em oficina própria.

Já tem um tempinho que o artesão é reconhecido como profissional (o projeto foi sancionado em 22 de outubro de 2015, pela Lei 13.180), na verdade não é tanto tempo assim, mas era apenas uma questão de tempo, já que nosso país conta com mais de 10 milhões de artesãos.

Mesmo sendo reconhecido como profissão, e muitas vezes gerando renda compatível ou até superior a de pessoas que possuem algum nível de graduação, noto que a visão que muitos tem do artesão é errônea. é a de pobre coitadinho. que passa dificuldade e "faz suas coisinhas" para vender e ganhar alguns trocados.

Não, o artesão não é nenhum coitadinho, interessado em ganhar alguns trocadinhos, e ser tido como uma pessoa que não teve oportunidades na vida e como prêmio de consolação decidiu seguir o caminho dos trabalhos manuais, não, essa não é a realidade do artesão brasileiro, ou pelo menos os que estão próximos a mim.

Parece que aqui no Brasil (não posso falar dos outros países), a palavra artesanato possui um sentido pejorativo, artesanato e artesão na mesa frase são praticamente sinônimos de pessoas sofridas, que fazem o artesanato como única opção para sobreviver, ou, malucas de pedra que usam  artesanato como válvula de escape, uma terapia para ocupar a mente.

Artesanato é terapêutico? É sim, conheço pessoas que encontraram no artesanato sua terapia, mas veja bem, tudo que é feito por prazer torna-se terapêutico. esportes, costura, bordados, gastronomia, leitura, navegar na internet ... o artesanato ajuda as pessoas de diversas formas, mas noto que muitas vezes ele entra na vida da pessoa como terapia, a pessoa se apaixona pelo que faz e por fim, decide fazer o que ama.

Poeticamente eu poderia dizer que o artesão é uma pessoa que tem a capacidade de enxergar o mundo de uma maneira diferente, transformando sonhos em realidade através do trabalho de suas mãos, poético, e muito real.

Atualmente em qualquer área, a demanda para itens únicos, que ninguém mais tenha igual, que seja exclusivo, cresceu assustadoramente.
Todas as pessoas querem itens que ninguém tenha visto ainda, seja para se diferenciarem da outras pessoas, seja para causar boa impressão, enfim, os motivos são infinitos, mas as pessoas querem cada vez mais se diferenciarem umas das outras, e na maioria das vezes elas tem em mente o que desejam, mas por algum motivo, não conseguem transformar seu desejo, sua imaginação em algo físico, palpável, e é justamente aí que entra o artesão, para transformar os desejos em realidade, ou seja, o artesão trabalha com as mãos, coloca um pouquinho do coração em tudo que faz, mas o mais importante, o artesão trabalha com sonhos! O dele e o das outras pessoas que não tem habilidades para executar o que desejam.

Cada profissão nessa vida tem sua utilidade, tem o estudo, tem  afinco, tem a necessidade do aprendizado, e com o artesão não é diferente.
Engana-se quem pensa que o artesão não estuda, estudamos assim como qualquer outro profissional, nos planejamos, estudamos, nos dedicamos, vira-se a madrugada buscando métodos de aperfeiçoamento de técnicas para nos destacarmos  no que fazemos, assim como qualquer outro profissional que deseja crescer em sua área.

Vejo que em nossa cultura é muito forte o "cidadão de bem que acorda as 5 da manhã para ir trabalhar em um local que odeia", é necessário que as pessoas se libertem dessa cultura e respeitem a escolha profissional do outro. que muitas vezes é aliada a sua qualidade de vida, afinal, não tem que ser um inferno ganhar dinheiro, não é necessário trabalhar em um lugar que se odeia para ter que se manter, infelizmente parece que a autonomia e a coragem de escolher se libertar desse ciclo vicioso acaba incomodando quem muitas vezes está acomodado e não tem coragem nenhuma de mudar a própria vida.

Hoje, vivemos uma época em que o que tem valor é aquilo que é produzido em série, do outro lado do mundo, com pessoas em condições precárias que beiram a escravidão, mas que por terem apenas uma etiqueta marcando determinado produto como gado em linha de produção, são tidos como artigos de luxo e poder.

Muita gente, mas muita gente mesmo acha absurdo o valor cobrado por alguma peça artesanal, sendo que de determinada marca é mais barata ou com preço equiparado, acreditam que por serem artesanais o valor obrigatoriamente deve ser inferior ao de muitos produtos de mercado feitos em linha de produção.

Hoje, símbolo de luxo e glamour Louis Vuitton (que tinha origem humilde de uma família de carpinteiros e moleiros) tem altos padrões de qualidade, evoluiu muito em maquinários, mas seus itens são confeccionados artesanalmente, um a um, produzidos com extremo cuidado para que se conservados de maneira adequada durem a vida toda, e muitas vezes duram até mais que a vida toda, bolsas L.V e Channel passam de mãe para filha, ou de avó para neta, a propósito, dizem que em 1912, quando o Titanic afundou,muitos dos baús Louis Vuitton que estavam a bordo, foram encontrados a deriva extremamente preservados e com seu conteúdo intacto!

Pagou-se caro naquela época, paga-se caro hoje, mas valem o que custa por terem qualidade, por haver um suporte por trás da venda, por ser uma empresa com consciência ambiental, ser empresa com responsabilidade social  reflete diretamente nos valores.

Agora me diga, L. V tem todo seu processo de fabricação artesanal, e é super valorizado, valoriza o trabalho manual e a cada mínimo detalhe de seu produtos, qual a diferença entre um produto L.V fabricado  manualmente e uma bolsa fabricada por um artesão anônimo. mas com exímio cuidado, insumos de qualidade e atenção a cada mínimo detalhe?

A diferença é uma etiqueta, pq o dois trabalhos são artesanais.

Pra finalizar, o artesão não precisa do olhar de piedade, não precisa ficar com o troco do produto que acabou de vender, o artesão precisa e quer apenas ser reconhecido e valorizado pelo que faz.

:)

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4 comentários

  1. Muito legal a postagem! Vou compartilhar... esse ranço do brasileiro por trabalhos manuais vem do nosso longo e triste processo de escravidão, tempo em que a elite se ocupava com trabalhos "mentais" e os manuais eram feitos por escravos... quem sabem mudamos essa triste realidade....

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    1. Carol, sabe que mesmo refletindo muito sobre o ranço que o brasileiro sente por trabalhos manuais, nunca liguei isso á escravidão, e vc está coberta de razão!
      E cabe a nós mudarmos essa realidade, pq o artesão hoje em ia não é somnte uma pessoa que não teve estudos e se sente obrigado a seguir esse caminho, muitos são estudados ou estão estudando para ter um aproveitamento melhor do seu trabalho.
      Incrível seu pensamento.

      :)

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  2. Ahhh que massa. Quem trabalha com as mãos não é coitadinho. É feliiiiiiz!! Temos mesmo que acabar com esse preconceito triste. =D
    Adorei Julia!
    Bjoooos

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    1. Trabalhar com as mãos é libertador, somos felizes!

      Beijo pra vc tbm Gabi!! ♥

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