Leitura - Eu sou o último judeu

by - dezembro 26, 2015

Depois de muito cobiçar esse livro, e me preparar para lê-lo, eu o li, e foram as 152 páginas mais demoradas e sofridas da minha vida. 152 páginas não são nada, mas eu precisava de tempo para digerir o conteúdo, ia e voltava, parava, depois retomava e assim seguia.

De todos os livros que eu li sobre o Holocausto, sem dúvida esse foi o mais impactante, o mais visceral.



O autor, e seu irmão. 
Enquanto a maioria dos outros livros sobre o tema foram escritos após a guerra, de memórias que muitas vezes se alteram com o tempo, esse não, o autor o escreveu durante a guerra, enquanto corria risco de ser morto na Varsóvia, já que ele era um fugitivo do campo, e haviam muita pessoas dispostas a entregá-lo.

Geralmente quando lemos o relato de algum sobrevivente dos campos de concentração nazistas, eles vem de Dachau ou Auschwitz, nunca de Treblinka, isso pq Treblinka era fatalmente mortal, teve apenas 57 sobreviventes!

Existe uma tênue diferença entre Campo de Concentração e Campo de Extermínio, enquanto no primeiro os prisioneiros (judeus, ciganos, homossexuais, comunistas ...) eram forçados a realizarem trabalhos em prol de várias empresas alemãs, os campos de extermínio tinham como único objetivo, exterminar em larga escala aqueles que eram considerados perigosos para o governo nazista, principalmente os judeus (que eram tidos como um grane problema)!

Treblinka foi criado para ser um campo de extermínio perfeito, ou seja, matar em grande escala sem deixar indícios do que acontecera, ao contrário de alguns campos que tatuavam um número no braço de seus prisioneiros, em Treblinka isso não acontecia, primeiro pra não deixar vestígios e segundo, pq não daria nem tempo, já que no máximo em duas horas quem chegasse no vagão estaria morto.

E é justamente para lá, para Treblinka que o autor e sua irmã Rivke, de 19 anos, são levados.

“Os vagões tristes me carregavam para lá. Eles vêm de toda parte: do leste e do oeste, do norte e do sul. De dia e de noite, seja qual for a estação: primavera, verão, outono, inverno. Os comboios chegam lá abarrotados, incessantemente, e Treblilnka prospera mais a cada dia que passa. Quanto mais comboios chegam, mais Treblinka consegue absorvê-los.”

É assim, nessa tristeza e quase conformismo que o livro se inicia, mau sabia eu o homem forte que o livro mostraria posteriormente.


Ninguém sabia o destino do comboio, só se sabia que deviam racionar água e comida, pq o destino assim como o tempo que levariam para chegar até ele eram incertos... antes tivessem demorado mais ainda dentro do vagões e passado mais tempo com os seus!

Chega-se ao destino, mulheres e crianças para um lado, homens para o outro, todos despidos de suas roupas e dignidade, e vez ou outra um é fisgado no meio disso tudo para realizar trabalhos muito pesados dentro do campo, e é assim que Chil sobrevive a primeira de muitas fases dentro desse inferno, ele sobrevive, mas ao ser obrigado procurar coisas de valor, separando roupas de uma pilha, vê o vestido de sua irmã, que não teve tanta "sorte" como ele.


Um dos trechos que mais me emocionou, a mãe, que pede para ser tonsurada devagar, afim de esperar a filha, para que juntas, caminhem para a câmara de gás.   

É difícil resenhar um livro desse sem contar spoilers, tudo acontece muito rápido, e as coisas são escritas de forma muito crua e impactante, não há meio termo , não tem como florear as verdades de um campo de extermínio, certo trecho o autor choca ao relatar:

"Lembro-me de uma situação: dois carregadores negligenciaram as ordens e, em vez de carregarem sua maca com um grande cadáver, colocaram três criancinhas. 
O Unterscharführer ordenou-lhes que parassem, chicoteou-os violentamente e berrou: 
- Cães, por que estão carregando essas bugigangas? 
(Era assim que eles chamavam as criancinhas.) 
Os carregadores de "bugigangas" tiveram que fazer meia-volta e recolher um cadáver de adulto." 
- Capítulo 17 - página 123 -

É disso que estou falando, dessa crueldade, desse lado que ninguém cita em seus livros pós guerra, e que estava tão fresco na mente do autor. Sou mãe, de duas meninas cheias de vida, e ler isso me doeu, talvez doa mais em quem tenha filhos, e eu precisei fechar o livro, me levantar e ir fazer outra coisa depois de ler que crianças pequenas, inocentes e cheias de sonhos para uma vida, depois de mortas foram chamadas de bugigangas. Foi forte demais pra mim, compreende?

Eu não posso contar partes, mas  Chil exerceu diversas funções dentro do campo, separava roupas e procurava pertences valiosos nelas, foi tonsurdor do cabelo de diversas mulheres, foi carregador de corpos, depois foi dentista e por fim, fugiu desse inferno chamado Treblinka.

Com sinceridade, não sei como uma pessoa mantém a sanidade em um lugar desses, vendo o que viu, não é atoa que muitos se suicidaram, não é qualquer pessoa que tem fibra pra suportar tanta crueldade e não ficar lelé da cuca depois.

É um livro pequeno, mas de uma riqueza de detalhes que embrulha o estômago (sem exageros!), e pra auxiliar no processo de compreensão tem fotos e mapas pra gente se localizar e imaginar tudo com mais clareza e dar mais verdade ainda aos fatos.





Classifico o livro como 10 de 10, é bem escrito, é rico em detalhes, e promove reflexão, na segunda guerra tivemos o holocausto com judeus, ciganos, negros, mas atualmente temos holocaustos assim acontecendo em diversas partes do mundo, os refugiados sírios morrendo ao querer entrar na Europa ... então, fica a reflexão de um Holocausto moderno. Não os colocamos em câmaras de gás, mas dar as costas é tão errado quanto.

Indico um outro livro visceral e verídico, Auschwitz, o testemunho de um médico, que dessa vez é escrito do ponto de vista de um médico judeu, que trabalhou como legista em Auschwitz, relatando necropsias minuciosas e decobertas horríveis sobre a prática da "mdicina" de Hitller, e que relata como é ser prisioneiro, ter "privilégios", viver sobre o domínio do medo, mas exercendo uma função que é observada pelas altas patentes do exército.

Espero que quem o ler não seja tão impressionável como eu sou, o livro martelou e me martela todos os dias quando vejo sua lombada na estante.
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Precisei de alguma coisa que fizesse peso sobre as páginas do livro, imediatamente recorri à minha caixinha de jóias e retirei esse relógio de corda, que tem mais de 100 anos, e foi trazido da Alemanha pelo meu bisavô, é uma das poucas lembranças que minha avó me deixou, ela contava com muito orgulho, que os pais vieram da Alemanha em um navio muito precário, se conheceram durante a viagem e casaram lá mesmo, por volta de mil oitocentos e qualquer coisa (se minha avó etivesse viva, teria 95 anos!).
E é muito gostoso ter coisinhas pequenininhas assim, antigas, mas carregadas de significado, que aquecem o coração. 

Pra muita gente é só um relógio velho, de bolso, mas pra mim, o tic tac, ao dar corda e coloca-lo debaixo do meu travesseiro, foi o que me colocou perto e vovó após sua partida, e acalmou meu coração muitas vezes. 


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